François Jullien 20.11.09
China Superpowerhttp://www.youtube.com/watch?v=3Cj0MAKmQIg
François Jullien
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Anne Cheng
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- Por que fazer da China o tema de sua pesquisa?
François Jullien - No início me interessei pelo pensamento grego, mas depois pela China porque ela possui uma exterioridade marcante em relação à cultura europeia. Exterioridade de língua, já que o chinês não pertence à grande tradição indo-europeia; de história, já que os contatos da Europa com a China se tornaram mais frequentes apenas a partir do século 16, na esteira das missões de evangelização, e ganharam intensidade na segunda metade do século 19, como desdobramento do processo colonial moderno. Apesar das diferenças, ambas, Europa e China, são comparáveis. Não se trata de buscar o exotismo da China, mas de evidenciar quanto ela é um caso particularmente tipificado e com forte exterioridade em relação à cultura europeia. Minha abordagem é filosófica. Trabalho sobre um pensamento constituído e explicitado, com o objetivo de reinterrogar o pensamento europeu a partir de fora.- Qual é a diferença entre exterioridade e alteridade? Jullien - Sim, eu mencionei exterioridade e não alteridade, porque a exterioridade é algo dado pela geografia, pela língua, pela história: pode-se constatar. Por sua vez, a alteridade é uma construção cultural. A China está alhures; mas em que medida ela se constitui em um outro? É o que Foucault chamava literalmente, em As Palavras e as Coisas, de heterotopia da China, distinta da utopia. As utopias confortam, as heterotopias inquietam. Mais do que a diferença do pensamento extremo-oriental com relação ao europeu, há uma indiferença nutrida tradicionalmente entre esses termos. O primeiro desafio é sair da indiferença mútua, de maneira que um possa visualizar o outro, numa mudança de enfoque que suscite o pensar.
- Quais seriam os outros modos de inteligibilidade no mundo contemporâneo, paralelos à tradição judaico-cristã e ao racionalismo ocidental?Jullien - Contrariamente ao que pretende a história ocidental da filosofia, o Extremo Oriente não ficou em estado pré-filosófico. Ele inventou seus marcos de abstração, conheceu uma diversidade de escolas e explorou outras fontes de inteligibilidade.Há um benefício duplo nesse percurso intelectual da China. Além da descoberta de outra inteligibilidade, sonda-se até onde pode ir essa desterritorialização do pensamento. Mas o deslocamento implica também um retorno. Do ponto de vista da exterioridade, cabe retornar aos pressupostos a partir dos quais se desenvolve a razão europeia. São pressupostos ocultos, não explicitados, que o pensamento europeu veicula como uma evidência. O objetivo aqui é remontar ao impensado do pensamento, captando a razão europeia ao inverso, a partir de sua exterioridade. Pensar na China é justamente sair do grande movimento pendular entre Atenas e Jerusalém, encarnado pela filosofia europeia. - Quais as consequências dessa compreensão para a percepção da China contemporânea? Jullien - Eu proponho a noção de "potencial de situação" para compreender a concepção chinesa de eficácia. Apanho-a dos estrategistas da Antiguidade, como Sun Zi e Sun Bin. Mais do que modelar uma fórmula ideal colocando-a como uma meta, o que implica forçar a impregnação dessa meta na realidade, aquilo que vem a ser eficácia na China se aplica a demarcar, a detectar os fatores favoráveis existentes no seio da situação abordada. A ideia é fazer evoluir continuamente a situação em função dos fatores que podem ser revelados, de maneira que da situação mesma decorra o efeito. Assim, se hoje não é favorável, é preferível esperar, mais do que se destroçar enfrentando uma situação adversa. É por isso que prefiro para a China o termo "eficiência", mais do que "eficácia". Eficiência permite compreender a continuidade de um desdobramento e, ao mesmo tempo, a arte de captar sua imanência, sem evidenciar a imposição de um projeto. Donde decorre uma segunda noção: a de "transformação silenciosa". Ora, diferentemente do herói europeu, que não apenas estabelece uma meta como age de maneira que propicia a forma ideal que traçou, um dos temas mais marcantes do pensamento chinês é o não agir, que não deve de forma alguma ser compreendido no sentido de passividade ou de ausência de engajamento. Se o estrategista não age, ele transforma, faz lentamente evoluir a situação no sentido desejado, por influência. Enfim, a transformação manifesta-se como o contrário da ação. Enquanto esta é local, momentânea e ligada a um sujeito específico, a outra é global e progressiva. Nós não a vemos, mas ela acontece. Como o envelhecimento de uma pessoa, que percebemos quando a comparamos com uma fotografia de 20 anos atrás. O pensamento chinês dissolve a individualidade do evento no processo. - Mas de que maneira essa "transformação silenciosa" se realiza hoje na China? Jullien - A China, ainda hoje, não me parece estar projetando um plano sobre o devir, perseguindo um fim dado ou divisado, mesmo imperialista, mas sim parece estar explorando da melhor maneira possível, dia após dia, seu potencial de situação. Quer dizer, tirar partido dos fatores favoráveis, seja no domínio econômico, no político, no internacional, e em qualquer ocasião. É apenas agora que começamos, um tanto estupefatos, a constatar os resultados: em alguns decênios, ela converteu-se na usina do mundo e nos próximos anos seu potencial crescerá inelutavelmente. E isso sem um grande evento ou ruptura. Deng Xiaoping, o "pequeno timoneiro", foi o grande transformador silencioso da China. Ele empurrou gradualmente a sociedade chinesa, alternando liberalização e repressão, do regime socialista ao hipercapitalismo, sem jamais ter declarado uma ruptura franca entre os dois. Vejamos, por exemplo, a imigração chinesa na França. Ela estende-se de um bairro a outro, com cada recém-chegado trazendo, um após o outro, todos os seus primos. As celebrações chinesas ganham ano a ano mais importância. Mas essa transição é tão contínua que nós não a percebemos, e não a barramos. São necessárias ferramentas teóricas específicas para compreender a China contemporânea, com esse regime hipercapitalista sob a redoma comunista apoiada em estrutura hierárquico-burocrática. O Partido Comunista Chinês já se transformou muito. A China renovou suas elites, de uma geração a outra, graças às temporadas de estudo e estágios no exterior. Mas o partido permanece como estrutura de poder. Uma das minhas grandes admirações é perceber que a China jamais conheceu outro regime que não a monarquia. Fala-se na China apenas do bom ou do mau príncipe, da ordem ou da desordem. E, mesmo, considera-se que um mau príncipe é melhor do que a anarquia. Há, sim, momentos em que o poder chinês fracassa, mas eu jamais vi aparecer o ideal de política no senso das formas-modelo de Platão, Aristóteles ou Montesquieu, as quais constituem regimes distintos, cujas qualidades intrínsecas nós cotejamos.
- Como o senhor caracteriza e diferencia os conceitos de universal, comum e uniforme? Jullien - O universal exprime um conceito da razão, emergindo da tradição europeia, e se reclama como uma necessidade a priori, confundindo-se com a elevação do pensamento e com a própria ciência. Assinala, assim, uma intransigência inegociável. O uniforme é um conceito da produção, que se projeta não por necessidade, mas por comodidade. A única racionalidade que pode ser atribuída ao uniforme é a da gestão e a da economia. Enquanto o universal apoia-se na ordem da lógica e do prescritivo, o uniforme repousa sobre a imitação. Assim, se o universal suscita ostensivamente a rebelião, aquela da singularidade, o uniforme se contenta em acalmar as resistências ao seu redor e se funde à paisagem. Sua potência é cumulativa: quanto mais se propaga, mais se impõe. O uniforme produz a estandardização e, assim como o universal, pode ofender o individual ou o singular, chocando-se com a diferença. O comum é político. Diz respeito àquilo que se compartilha. O comum não é o parecido. Ele é dado por uma noção de pertencenimento, que conforma comunidade, e pode se legitimar em progressão, por extensão gradual, como que delineando níveis sucessivos de comunidade aos quais um indivíduo ou grupo pode ser integrado. Trata-se, portanto, de um termo de dupla face, ao mesmo tempo inclusivo e exclusivo, pois, ao incluir determinado perfil, ele pode excluir outro, por negação. A tendência histórico-filosófica do comum é mais forte no sentido de se descerrar do que de se fechar. O comum evolui de um espaço de inclusão e de convergência para um local onde as particularidades se diluem, onde os interesses privados e específicos brandem suas contradições em igualdade de condições, com transparência, possibilitando a emergência do diálogo e da política.



































